quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dois Poemas de Natal/ Miguel Torga e David Mourão - Ferreira

História Antiga

 Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga








 Natal e Não Dezembro




Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sitio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.


Entremos, dois a dois : somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira


Um abraço e desejos de Bom Natal

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Poema

O mar-amante tomou-me
E nos meus cabelos ficaram
Cascatas de rimas.
Não notam?
Sou ave diáfana.
Sou ave planando
Entre folhas de um livro
Só meu.
Só meu porque ninguém o lerá.
Mas grito: Vejam, concebi!
Estou prenhe de versos!
...E o sonho surge atrofiado
Ante a multidão despercebida.

                                              Eugénia Edviges



Um grande abraço.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Problema

Pi será igual a tal...
Raíz quadrada de mil...
Protões, neutrões, electrões!
Tudo faz embaraçar!
E o coração a bater
E o coração a falar.

Je serais e tu seras...
Impulsão, átomo, força...
- Menina, responda lá:
O que entende por fenómeno?
("Seus beijos parecem brasas,
seus braços parecem asas...")
- Fenómeno!?...Talvez o sinta...
E o coração a bater
e o coração a gritar.

- No Presente e no Futuro
Conjuguem o verbo ter.
("Conjugar o verbo amar
Sei de cor e salteado")
E o coração a explicar
e o coração a sofrer

Títulos de crédito, Diário...
- Façam agora o Balanço!
("Ai, esses olhos que me embalam,
essas mãos que me afagam...")
- Balanço!? Como se faz?...
  ("Ai, que amor de rapaz...!)
Conta, Letras a Pagar...
E o coração a bater
E o coração a vibrar.

Hidrogénio, atmosfera,
Gôtas de ar, respiração.
("Nas nuvens já eu estou")
- Menina, preste atenção!
E o coração encantado
Por alguém que o encantou!

                                                     Eugénia Edviges



Um abraço apertado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

As Badaladas


Mote
Canta a Torre as badaladas
E eu sei bem porque razão
Quando batem as malvadas
Vibram no meu coração

Glosas
Este Largo tem encantos
Que não cabem nos meus versos
Vazios, nus e dispersos.
Nem nas palavras pelo vento
Segredadas
Quando as horas se anunciam e
Canta a Torre as badaladas.

É toque que acarinha
De modo doce e fremente
O peito da minha gente.
Que alimenta o seu sorriso
Como pão,
Que faz seu rosto brilhar…
E eu sei bem porque razão.

Há vida no seu cantar:
Os olhares furtivos do tardar
A conversa que ficou por acabar.
Vivências de outros tempos
Lembradas
E os amores são fugazes
Quando batem as malvadas.

Sentimentos indistintos…
Quero em poemas dizer
A força que nos dá o seu bater
Em rimas que ultrapassem
A razão.
Mostrar como as badaladas
Vibram no meu coração.

                                                      Eugénia Edviges




 Um grande abraço

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Dois poemas pequeninos


PASSAGEM


Flores de papel

Nos cabelos.
Voando em concha
Na corda presa.
Menina ainda...
Sem tempo
Para saber
Que os sonhos
Viriam a ser
Sonhos de papel...!



        

         LUTA

Queria esquecer

Quem fui,

Anseios e brincadeiras

De criança,

Sem o ser.

Queria esquecer

Desejos,

Sentimentos de ternura

Nessa criança-mulher.

Queria esquecer

Tristezas

 E as voltas

Que a vida deu,

Queria esquecer

Canções,

Lamentos da minha alma

Que não chegaram ao céu.





Mas não foi sonho

Ser criança

Pois acordo e por castigo,

O tempo antigo

Vem à lembrança...

E é verdade

O que senti,

Pois com cálice de vento

Traguei o tempo

Mas não esqueci!

                           Eugénia Edviges

Um abração

domingo, 2 de outubro de 2011

RÚSTICA de Florbela Espanca

Eu q`ria ser camponesa
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha...

Levar o Cântaro à fonte,
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho...

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D`olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
Plos caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: "Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?"
Eu diria: "É do poente,
Que assim me faz encarnada!"

E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir p`ró monte:                                          
"O cant`ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu..."


Poema do livro "Versos, Pedaços de Sorriso"
Ilustração de Duhamel



Um forte abraço!
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