quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Resto do Tempo



Fica quieta
Escondida na bruma
A espreitar esse tempo
Acabado
Deixa-me ficar à espera
Do resto do meu tempo
Aguardado.

Não me olhes
Assim, vingativa.
Ainda resisto ao teu ódio
Faiscante
E posso manter sobre ti
Sem repulsa, o meu olhar
Provocante

Não venhas ainda.
Fica suspensa
Envolta em mistério
Profundo
Que eu dobro, sem veres,
A esquina do tempo
No Mundo.


Só quando eu cair
Humilhada, indigna,
Aterradora
Vem rápida, acutilante
E vencedora.


                                                                                               Eugénia Edviges




Um abraço

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pedro Homem de Mello - O Bailador de Fandango


Poeta português, de nome completo Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello, nascido a 6 de Setembro de 1904, no Porto, e falecido a 5 de Março de 1984. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi professor de Português e de Literatura Portuguesa no ensino técnico. É autor de uma obra poética extensa (cerca de 25 volumes de poesia),  integrando uma poesia de cunho tradicional. A sua poesia, de raiz popular, revela que era apaixonado pelo folclore português, tendo escrito sobre isso vários ensaios e feito vários programas de rádio e televisão.
Foi distinguido com o Prémio Antero de Quental  e o Prémio Nacional de Poesia em 1973. A sua obra poética encontra-se compilada em Poesias Escolhidas. Como estudioso do folclore nacional, escreveu A Poesia na Dança e nos Cantares do Povo Português e Danças de Portugal.





O Bailador de Fandango

Sua canção fora a Jota
sua dança fora o vira
Chamavam-lhe o fandangueiro
mas seu nome verdadeiro
quando bailava, bailava...
não era nome de cravo
nem era nome de rosa
era o de flor misteriosa
que se esfolhava, esfolhava...
e havia um cristal na vista
e havia um cristal no ar
quando aquele fandanguista
se demorava a bailar.
e havia um cristal no vento
e havia um cristal no mar
e havia no pensamento
uma flor por esfolhar...

Fandangueiro! Fandangueiro!
nem sei que nome lhe dar
tinham seus braços erguidos,
não sei que ignotos sentidos...
jeitos de asa pelo ar?...
quando bailava, bailava,
não era folha de cravo
nem era folha de rosa,
era uma flor, misteriosa,
que se esfolhava, esfolhava...

Domingos Enes Pereira,
do lugar de Montedor,
o bailador de fandango
era aquele bailador!

Vinham moças de Areosa
para com ele bailar.
E vinham moças de Afife
Para com ele bailar.
Então as sombras dos corpos
Como chamas traiçoeiras
entrelaçavam-se...e a dança
cobria o chão de fogueiras.
e as sombras formavam sebe,
o movimento as florira:
O sonho...a noite...o desejo...
Ai! belezas da mentira!
E as sombras entreleçavam-se,
Os corpos, ninguém sabia
Se eram corpos, se eram sombras,
Se era o amor que se escondia...



Um grande abraço

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Apetece-me Escrever


Apetece-me escrever...
Tudo o que os meus
Olhos vêem,
O que as minhas mãos
Afagam...
Representar no papel
O perfume duma flor,
O sussurro de um riacho.
                                    Quero que estas
Folhas brancas
Contenham em si
O desejo de possuir
Um corpo vibrante.
Apetece-me escrever
O riso duma criança,
A canção do mar
Que ecoa
No silêncio da praia.
                                    Escrever o tempo numa folha
E que todos leiam
Como quem descobre
Que não há limite de palavras
Para a eternidade.
Escrever o dia e a noite
Que se alcança
                                    Através dos gestos
                                    Das florestas.
Apetece-me escrever
Como se fizesse amor
No jardim dos deuses...


                                                        Eugénia Edviges
Quadro de Johannes Vermeer (1632-1675). Foi um pintor holandês, que também é conhecido como Vermeer de Delft ou Johannes van der Meer.

Um grande abraço


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

As Letras Que Eles Cantam - As Vidas dos Outros

 Letra e música: José Rebola

Eu sou tão bom a falar das vidas dos outros
há sempre um conselho a dar p`rás vidas dos outros
Nada é eterno e se aguentarmos todo o mal tem fim
É fácil ter calma quando a alma não me dói a mim
Eu sou tão bom a tornar todo o mal inerte
Se é aos outros que lhes custa que o passado aperte
Mas quando a inquietude vem toda para o meu lado
Deita-se desnuda  e não desgruda até me ter vergado.

É tão simples quando estou de fora
A ver passar as nuvens pelo ar
Aplaudir, rever-me e concluir
Que eu também já lá estive e...
Já soube ultrapassar
Só a mim é que ninguém me entende
E a minha dor não tem como acabar
Ai quão melhor era acordar um dia
E ter as vidas dos outros todas em meu lugar

As vidas dos outros nunca me soam mal
Vêem problemas no que é no fundo normal
Ai se eles soubessem como é viver assim
As vidas dos outros são tão fáceis para mim

Eu sou tão bom a falar das vidas dos outros
Sempre me sei comportar nas vidas dos outros
Volta, revolta, o melhor está para vir
Solta tudo agora, não demora tornas a sorrir
Eu sou tão bom a apagar qualquer mau momento
Se é aos outros que lhes bate à porta o sofrimento
Mexe, remexe, alguma coisa hás-de encontrar
A solução é procurar

Eu sou tão bom a falar
Eu sou tão bom a cantar
Eu sou tão bom a contar as vidas dos outros
Eu sou tão bom a falar
Eu sou tão bom a curar
Tudo menos o meu próprio mal.

Um abraço.
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