quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

As Letras Que Eles Cantam - As Vidas dos Outros

 Letra e música: José Rebola

Eu sou tão bom a falar das vidas dos outros
há sempre um conselho a dar p`rás vidas dos outros
Nada é eterno e se aguentarmos todo o mal tem fim
É fácil ter calma quando a alma não me dói a mim
Eu sou tão bom a tornar todo o mal inerte
Se é aos outros que lhes custa que o passado aperte
Mas quando a inquietude vem toda para o meu lado
Deita-se desnuda  e não desgruda até me ter vergado.

É tão simples quando estou de fora
A ver passar as nuvens pelo ar
Aplaudir, rever-me e concluir
Que eu também já lá estive e...
Já soube ultrapassar
Só a mim é que ninguém me entende
E a minha dor não tem como acabar
Ai quão melhor era acordar um dia
E ter as vidas dos outros todas em meu lugar

As vidas dos outros nunca me soam mal
Vêem problemas no que é no fundo normal
Ai se eles soubessem como é viver assim
As vidas dos outros são tão fáceis para mim

Eu sou tão bom a falar das vidas dos outros
Sempre me sei comportar nas vidas dos outros
Volta, revolta, o melhor está para vir
Solta tudo agora, não demora tornas a sorrir
Eu sou tão bom a apagar qualquer mau momento
Se é aos outros que lhes bate à porta o sofrimento
Mexe, remexe, alguma coisa hás-de encontrar
A solução é procurar

Eu sou tão bom a falar
Eu sou tão bom a cantar
Eu sou tão bom a contar as vidas dos outros
Eu sou tão bom a falar
Eu sou tão bom a curar
Tudo menos o meu próprio mal.

Um abraço.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Mito Poético

Com Vénus banhei o meu corpo escaldante
Da Fonte Cástila bebo lentamente
Enquanto Minerva declinadamente
Escreve os meus versos em teia gotejante.

Calíope me eleva em grande aparato,
Apolo me canta em odes extremas
E as Graças formosas me cobrem serenas
De mosto enleante das vinhas de Baco.

Os homens não vêem as rimas que eu crio.
São penas terrenas o meu atavio.
Rejubilarei então  num rasgo final:

Que Morfeu persista! Que Erebo não suma!
Que os deuses me envolvam em lençol de espuma
Para que não reparem que eu sou Mortal!

                                                                                Eugénia Edviges
Segundo a Mitologia Grega:

Vénus - deusa da beleza, nascida da espuma do mar;
Fonte Cástila - situada no Monte Parnaso. Quem dela bebesse tornar-se-ía poeta;
Minerva - deusa das artes, da ciência;
Calíope - deusa da eloquência;
Apolo - deus da música, protetor das artes;
Morfeu - deus do sono;
Erebo - deus da escuridão, da noite;
Baco - deus do vinho;
Graças - deusas dançarinas do Olimpo.


                     "As Três Graças" (1639) - um dos últimos trabalhos de Rubens.
                     

Um abraço e votos de um ano de 2012 com muita poesia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Massacre dos Inocentes


Naquela noite em que as estrelas brilharam mais,
Em que anjos celestiais
Anunciaram que Jesus,
O salvador dos homens, tinha rasgado a luz,
Muitos gritos inocentes ecoaram pelo deserto
Exalando o último alento às mãos de um tirano.

Naquela noite em que três magos de reinos distantes
Se prostraram frente ao Menino,
Em adoração
E a seus pés depositaram ouro, incenso e mirra,
Muitos gritos de mães se ouviram no deserto
Segurando nos braços os filhos agonizantes

                                                                              Eugénia Edviges

 
 "O Massacre dos Inocentes" óleo sobre madeira de RUBENS.




Um abraço.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dois Poemas de Natal/ Miguel Torga e David Mourão - Ferreira

História Antiga

 Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga








 Natal e Não Dezembro




Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sitio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.


Entremos, dois a dois : somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira


Um abraço e desejos de Bom Natal

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Poema

O mar-amante tomou-me
E nos meus cabelos ficaram
Cascatas de rimas.
Não notam?
Sou ave diáfana.
Sou ave planando
Entre folhas de um livro
Só meu.
Só meu porque ninguém o lerá.
Mas grito: Vejam, concebi!
Estou prenhe de versos!
...E o sonho surge atrofiado
Ante a multidão despercebida.

                                              Eugénia Edviges



Um grande abraço.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Problema

Pi será igual a tal...
Raíz quadrada de mil...
Protões, neutrões, electrões!
Tudo faz embaraçar!
E o coração a bater
E o coração a falar.

Je serais e tu seras...
Impulsão, átomo, força...
- Menina, responda lá:
O que entende por fenómeno?
("Seus beijos parecem brasas,
seus braços parecem asas...")
- Fenómeno!?...Talvez o sinta...
E o coração a bater
e o coração a gritar.

- No Presente e no Futuro
Conjuguem o verbo ter.
("Conjugar o verbo amar
Sei de cor e salteado")
E o coração a explicar
e o coração a sofrer

Títulos de crédito, Diário...
- Façam agora o Balanço!
("Ai, esses olhos que me embalam,
essas mãos que me afagam...")
- Balanço!? Como se faz?...
  ("Ai, que amor de rapaz...!)
Conta, Letras a Pagar...
E o coração a bater
E o coração a vibrar.

Hidrogénio, atmosfera,
Gôtas de ar, respiração.
("Nas nuvens já eu estou")
- Menina, preste atenção!
E o coração encantado
Por alguém que o encantou!

                                                     Eugénia Edviges



Um abraço apertado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

As Badaladas


Mote
Canta a Torre as badaladas
E eu sei bem porque razão
Quando batem as malvadas
Vibram no meu coração

Glosas
Este Largo tem encantos
Que não cabem nos meus versos
Vazios, nus e dispersos.
Nem nas palavras pelo vento
Segredadas
Quando as horas se anunciam e
Canta a Torre as badaladas.

É toque que acarinha
De modo doce e fremente
O peito da minha gente.
Que alimenta o seu sorriso
Como pão,
Que faz seu rosto brilhar…
E eu sei bem porque razão.

Há vida no seu cantar:
Os olhares furtivos do tardar
A conversa que ficou por acabar.
Vivências de outros tempos
Lembradas
E os amores são fugazes
Quando batem as malvadas.

Sentimentos indistintos…
Quero em poemas dizer
A força que nos dá o seu bater
Em rimas que ultrapassem
A razão.
Mostrar como as badaladas
Vibram no meu coração.

                                                      Eugénia Edviges




 Um grande abraço

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