sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As Letras Que Eles Cantam - Outra Margem de Mim





OUTRA MARGEM DE MIM - letra e música de Mafalda Veiga

É muito tempo a desejar o tempo
De mudar ventos, levantar marés
É muita vida a desejar o alento
Que faz saber ao certo quem és

É funda a toca onde te escondes tanto
Tem a distância entre o silêncio e a voz
A vida rasga bocadinhos gastos do mundo
Vai descascando até chegar a nós

A tu que sabes tanto de mim
Tu que sentes quem eu sou
Dá-me o teu corpo como ponte que me salva
Do que o medo fechou

São muitos dias a perder em vão
Sem nunca entrar dentro do labirinto
É muita vida a não ser o que tu sentes
A planar sobre o que eu sinto

É quase noite, não te escondas mais
Vai desatando até entrar o ar
Dá-me um gesto que me diga o teu fundo
Uma palavra para te tocar

Tu que sabes tanto de mim
Tu que sentes quem eu sou
Dá-me o teu corpo como ponte que me salve
Do que o medo fechou

Tu que sabes tanto do sol
És uma espécie de outra margem de mim
Olha-me dentro como chão que me agarre

Pode ser esta noite quente
A estrada aberta mesmo à nossa frente
E tu e eu a descobrir o ar
Não é preciso correr
Não é urgente chegar
O que é preciso é viver

Não é urgente chegar.
O que é preciso é viver.



Um abraço

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Praça da República




Esta Praça secular testemunhou
Uma história de ruínas e de medo
E o seio do seu jardim já vibrou
Com amores confessados em segredo

Nesta Praça uma ruela foi rasgada
A que o povo, com vaidade, diz que é sua,
Musa de poetas e em telas pintada…
Do Arco, assim se chama aquela rua!

Esta Praça foi palco de risos geniais
Quando os grupos, alegremente, esperavam
As comédias ou os dramas imortais
Que, por escassas horas, admiravam.   

No seu centro uma pedra escura existe
Onde outrora se ouviam tanger os sinos;
Só a pedra fala de uma história triste,
Só a pedra canta a lembrar os hinos.

Daqui seguem caminhos para novos horizontes,
Para outros lugares, em certo tempo, distantes,
Para outros rios, para outras fontes,
Para outras pedras falantes.


Um grande abraço.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ladainha dos Póstumos Natais - David Mourão-Ferreira



Poema do livro "Cancioneiro de Natal"






Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo.


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do infinito.


UM ABRAÇO.


terça-feira, 17 de julho de 2012

As Letras que Eles Cantam - Versos de Amor




Às onze e meia, sai para a rua,
Com o seu fato domingueiro,
Dormindo a aldeia, brilhando a lua,
Num céu de estrelas, conselheiro
Coração quente, timidamente,
À sua porta então chamou
E abriu-se a janela e só para ela,
Triste, cantou...

Versos de amor,
Lindos esses versos de amor
Que fizera em segredo,
A sonhar, quase a medo,
Um viver tentador.
A sua vida por uns versos de amor,
Lindos esses versos de amor
Na mais terna amargura,
O silêncio murmura uma história de amor

A noite imensa, foi mais rainha,
Quando uma lágrima caiu,
Na recompensa, o amor que tinha,
Ela também chorou, sorriu
Foi tão bonito, tinham-lhe dito,
Que amar ás vezes faz doer,
Mas a dor que sentia,
Não lhe doía, dava prazer...

Versos de amor,
Lindos esses versos de amor
Que fizera em segredo,
A sonhar, quase a medo,
Um viver tentador.
A sua vida por uns versos de amor,
Lindos esses versos de amor
Na mais terna amargura,
O silêncio murmura uma história de amor
Na mais terna amargura,
O silêncio murmura uma história de amor.


Um abraço.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Tu Eras






Tu eras
A minha força,
O meu devaneio, o meu lugar,
O meu cais de choro e riso.
Para o meu inferno
Buscava o teu paraíso.

Tu eras
O meu conforto,
O meu amparo de cetim,
O meu rio de águas claras.
Para esta revolta
Buscava as tuas palavras.

Disse-te adeus e voltei.
Sobre o ombro
Atiro um último olhar
Sem sentido.
Sinto-me nua
Porque tudo o que levei
Ficou contigo.


Eugénia Edviges


Um abraço
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