sexta-feira, 20 de abril de 2012



               PRELÚDIO

Era um dia triste e feio daquele mês,
Era um dia sem ter luz, acinzentado,
Como um sonho, aos poucos, inacessível,
Como a alma de um povo amedrontado.

- Onde estão os cravos deste Jardim?
Perguntam sem saber qual a razão
Por que o peito português batia tanto,
Por que exultava, confiante, o coração.

O orvalho da manhã trazia esperança,
Amputara-se a chaga pela raiz
E as vozes oprimidas, murmuravam:
- Onde estão os cravos deste País?

E a Festa do meu povo começou
E até o céu parecia azul-anil,
Porque algo grandioso acontecera
Com os cravos cor de sangue, cor de Abril!

                                                 Eugénia Edviges

Um abraço revolucionário.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Comunhão




Ouve o rumor
Das almas perdidas.
Repousa nas sombras
Dos cantos solitários.
Embala o sexo desejado
Em corpos suados de amor.
Ouve o sussurro
Das folhas de Outono,
Escuta o murmúrio da água
Que corre para o mar
E se agiganta.
Sente a frescura dos plátanos,
Perde o olhar na certeza das serras,
Nos gestos das florestas.
Rejubila.
Sobrevive.

                                                  


 Eugénia Edviges



Um abraço

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia 2012

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Poesia. Não podia deixar passar este dia sem publicar no blogue poemas do maior poeta de língua portuguesa do século XX - Fernando Pessoa

Padrão

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.


O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Um grande abraço poético.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Luis de Camões- Esparsa ao Desconcerto do Mundo

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?




Esparsa ao Desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

Um abraço


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